
O Tribunal Criminal de Braga condenou um pai, Ilídio, Pires Costa, ao pagamento de 120 euros, por considerar que a estalada que este deu à filha «causou dor» e que «uma menor de 15 ou 16 anos não se educa à bofetada».
O caso é contado na edição desta sexta-feira do jornal Público, que revela que esta sentença foi confirmada pela Relação de Guimarães.
A bofetada foi dada no meio da rua há um ano, quando a filha de Ilídio, separado, se recusou a regressar a sua casa após ter tido férias com a mãe, conforme estipulado na regulação do poder paternal.
Tendo encontrado a filha adolescente na rua, os ânimos entre ambos exaltaram-se, e a rapariga bateu com as mãos no peito do pai, empurrando-o. E recebeu em troca uma bofetada na cara.
Fonte
O meu comentário:
Visto que acho que o que aqui está em discussão é mais do que o acto da bofetada em si, mas um pouco de pedagogia, vou falar desse assunto..
Acho que os filhos devem ter uma palavra a dizer no que toca ao que se passa numa casa, e daí é que surge o sentido de democracia, que cresce com a pessoa desde muito cedo.
No entanto, acho que o que se passou é uma vergonha para esta nação pelo precedente que pode abrir... Com que legitimidade é que fica agora o encarregado de educação para negar alguma coisa à criança? Isto mina a relação pais-filhos de uma maneira alarmante...
Uma criança que faz isto uma vez faz outra e outra! Onde já se viu um miúdo ligar para a defesa da criança porque o pai lhe deu uma bofetada, por exemplo? É isso e as birras de mimo de algumas crianças que já deveriam ter idade para ter juízo. O exemplo mais gritante é no supermercado, com os pais envergonhados a meter o brinquedo para o carrinho para acabar a discussão em frente a toda a gente.
Eu acho que isto acontece porque as pessoas neste país vivem de aparências. Tanta vez dão a ideia de ficar do lado da criança, olhando para os pais com desdém, e assumindo implicitamente o "coitadinho, se fosse o meu filho eu dava [pois até tenho um certo nível de vida que me permite, ou algo do género]".
Por outro lado, se passarem por pelo filho e disserem "cala-te miúdo, não vês que estás a envergonhar os teus pais?", é o próprio pai que diz "meta-se na sua vida, o filho é meu" para não dar parte de fraco! É um perfeito exemplo de quando não se dá a educação em casa, a sociedade vai compensar esse défice. É como um puto mimado que vai para a escola pela primeira vez, fazer o que faz em casa, e acaba por levar tareia dos colegas. Neste caso, a pessoa que tece o comentário está a contribuir para a educação da criança, a outro nível, e acaba por ser censurada. Enfim, são os nossos brandos costumes!
Li algures que estamos a criar uma geração de "pequenos tiranos" que exigem tudo e mais alguma coisa. Sob o pretexto de "Queremos dar aos nossos filhos tudo aquilo que não tivemos", as pessoas tornam-se condescendentes ao ponto de satisfazer os mais pequenos caprichos dos seus rebentos. Isto surge porque algumas pessoas são preguiçosas, na minha opinião.
Em alguns casos, é mais fácil dar a uma criança o que ela quer, mesmo que se façam alguns sacrifícios, do que sentar-se com ela e explicar-lhe o valor do dinheiro. As birras constantes e pequenas chantagens que todos nós fazíamos, enquanto crianças, não surtiam efeito pelo simples facto de que antigamente não havia este sentido generalizado de "se o outro tem, também tenho que ter", pelo simples facto de que toda a gente tinha menos dinheiro, e não havia o hábito de gastar o que não se tem. Agora, com a geração "moranguito" e coisas do género, torna-se insuportável ver o que (alguma, felizmente!) da juventude das gerações mais recentes se está a tornar.
Julgo que a criança deve ser ensinada desde muito cedo a dar valor ao dinheiro (e indirectamente das coisas que pede no supermercado por exemplo). E sim, custa muito mostrar-lhe o sacrifício que é necessário fazer para que ele entre em casa. O problema é que quando a criança é muito jovem, não compreeende nada se, por exemplo, os pais a levarem um dia para o local de trabalho (se possível) para ela ver porque razão o pai/mãe sai de manhã e só entra à noite. Isto é só um exemplo, que por acaso sucedeu comigo. O meu pai levou-me várias vezes com ele quando eu estava de férias, e gostei bastante dessas viagens. A partir daí, posso dizer que ficava com outra visão do que custava aos meus pais por o pão em cima da mesa.
Dizia Freud que nós temos fases de desenvolvimento, em que o prazer surge de diversas fontes, e essas fontes vão evoluindo à medida que crescemos, das mais básicas para as mais sofisticadas. Não sou psicólogo, nem me lembro agora do nome da teoria, mas a ideia é mostrar aqui a evolução. Quando as crianças são muito pequenas e não podemos sentar-nos com elas e explicar-lhes as coisas porque simplesmente não compreendem. Nestes casos, a bofetada ocasional ou umas valentes palmadas no rabo nunca fizeram mal a ninguém. São a maneira mais simples lhe de mostrar que não gostámos da acção dela e que não a deve tornar a repetir.
Agora o meu desabafo...O problema é esta nação tem tão pouco de que se orgulhar para além da sua selecção de futebol...e mesmo assim... Isto também se vê na educação dos filhos. Não há a mínima consciência de sociedade, é tudo concentrado no "um dia se estudares serás alguém, [serás visto como melhor que os outros]". Precisávamos de um pouco mais de "não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, mas sim o que tu podes fazer pelo teu país". Se houvesse um bocadinho mais do sentido de corpo que se vê em países como Israel ou o Japão, as pessoas poderiam também deixar de criar gerações de miúdos mimados e começavam a pensar em criar crianças mais habituadas a alguns sacrifícios.
